A idade é marcada na pele e as memórias são arquivadas na
mente, mesmo que ainda isso tudo se perca em um possível esquecimento. Maria
Fonseca, é uma mulher que viveu em tempos onde a bonança não durava tanto
quanto a tempestade. No momento em que a Comissão da Verdade Paulista é
aprovada e a nacional é planejada, pessoas que tiveram amigos e parentes
torturados pelas mãos sujas de sangue do regime militar, querem justiça para
aqueles que lutaram por suas ideologias, sejam elas utópicas ou
construtivas.
“Meus vizinhos, amigos e até professores de minha filha
sumiam sem dar pistas”, Lembra Maria. O
intuito da comissão, segundo Adriano Diogo, presidente da comissão, “é
esclarecer as graves violações dos direitos humanos, durante o período
ditatorial em São Paulo”.
Nossa personagem, uma senhora como qualquer outra que
preferia não entrar na discussão sobre o que realmente era aquele regime.
“Ninguém, ou quase nenhuma pessoa que tinha emprego fixo e família, gostava de
se envolver ou lutar contra algo que parecia ser invencível, e que de qualquer
forma nos passava uma imagem que só fomos ver desmascarada anos depois”, conta
Fonseca.
Nos tempos da ditadura (1964 à 1985), muitas das ações que
levam hoje à prisão, eram acobertadas por agentes ligados aos militares,
enquanto guerrilhas independentes tentavam derrubar o poder, pessoas inocentes
e que só usavam o dom da palavra para expressar sua indignação, eram friamente
executadas ou sumiam sem deixar rastros. Professores que falavam algo que ia
além daquilo imposto em sua aula, desapareciam de um dia para o outro, como
conta Maria. “Minha filha, quando pequena, chegava em casa diversas vezes me
dizendo que o professor ou professora que ela tanto gostava tinha saído de sua
escola sem se despedir dos alunos”, diz aflita. “A gente desconfiava, mas só
comentávamos quando estávamos em casa, longe de qualquer ouvido”.
A criação da comissão em São Paulo é um grande passo para a
democracia e para um enfrentamento pós-ditadura que ainda é tímido entre os
grandes órgãos públicos. O assunto foi sempre bastante criticado por aqueles
que sempre buscaram a verdade, mesmo não tendo vivido na época em que o regime
imperava nos solos paulistas e brasileiros.
Porém, muitas pessoas que entrarão em investigação, não
vivem mais e há a lei da anistia, que serve também aos militares, ou seja, o
ato da comissão será apenas para esclarecer e não para punir. Essa questão foi
alvo de protestos, principalmente no aniversário do regime, onde diversas
pessoas foram às ruas protestar e cobrar o início das comissões, pois a
principal delas, a nacional, ainda nem começou.
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